Academia Caxiense de Letras

Homenagem póstuma ao acadêmico Mario David Vanin, de sua lavra um poema publicado em 2010 na 2ª Antologia da ACLRS “Nos Trilhos da História”.

 

 

A SAGA DE UM TREM

 

 

Há uma ansiedade incontida

Na manhã que nasce radiosa,

Da noite indormida.

 

O espocar de foguetes,

Assusta os ginetes,

Vozes, barulho, movimento,

É de alegria explícita

O momento.

 

Ele vai chegar.

Ele vem,

Como será esse trem?

 

Homens animados, aglomerados,

Elegantes damas

Com suas frágeis sombrinhas, ais...

E as refrescantes sombras dos pinheirais

 

Chegou enfim, palmas,

Emoção, o trem, viva...

Poderia imaginar alguém, agora,

O dia de sua última partida?

 

O trem é como a vida,

Na sua chegada,

Como pensar na sua saída?

Mas como na vida, o trem,

Tem chegada e despedida.

 

E quando ninguém esperava,

O Trem partiu pela vez derradeira,

Quietinho, quase em silêncio,

Como se em silêncio

Pudesse partir um trem.

 

Atrás de si trilhos e dormentes,

Quais inúteis sementes,

Partiram sem nenhum encantamento,

Levando sonhos, esperanças,

E projetos de desenvolvimento.

 

A derradeira fumaça

Ainda esvoaça

Natarde que cai,

Ficando a cidade distante,

Qual pássaro voante.

 

O último apito,

Como um grito,

Suspenso no ar,

Nos alerta

Que é preciso, ainda e sempre, esperar.

 

E no trem que não mais virá,

Será?

Não virão diferentes gentes,

De múltiplos odores

Não virão nossos queridos,

E não mais virão nossos amores.

 

Festas já não há.

Onde terão se perdido as valsas do baile suspenso?

O telegrama se foi com o trem,

Como simples abano ao vento.

 

Para que parar, olhar, escutar,

Se não há mais trem a passar?

 

Foi-se o trem,

Mas esperança precisa ficar,

Ela faz o homem, de novo, caminhar,

E quem sabe o Trem retornar.

 

E de repente, não mais que de repente,

A gente ouve e sente

Um novo chegar,

Do nada, da tapera, Anunciando nova era,

Surgem trilhos,

Como fios de esperança,

E se escutarmos bem,

Lá vem o trem, lá vem o trem, lá vê o trem.

 

 

Em passe de mágica,

Voltaremos a ouvir o silvo distante,

Todos serão chamados a declamar, em jogral,

O poema de Bandeira, o poeta imortal,

Em linguagem bem local...

 

Café com pinhão,

Café com pinhão,

Café com pinhão,

Café com pinhão,

 

 

Santa Maria maquinista,

Não desista,

Traga o trem,

Amém.