Academia Caxiense de Letras

PARREIRAL

 

 

                                                            Remy de Araújo Soares- In Memoriam

                                                                              Acadêmica cadeira 17

 

 

O parreiral

corre pelos vales

e montanhas,

o perfume que dele se desprende

embriaga as flores do jardim

e as que sobem

pela encosta da montanha.

Elas sorriem num abraço.

Os colonos colhem uva

cantando alegremente,

há um doce perfume no ar,

o rio corre livre...

sereno...

Os passarinhos

voam

formando desenhos no ar,

 as casas se aconchegam

umas à outras,

abraçadas à igrejinha.

 

*Remy era Artista Plástica e esse poema está relacionado à uma de suas obras, um quadro em óleo sobre tela que retrata uma cena típica do interior de nosso município.

 

O PARREIRAL

 

 

                                                                     Lydia Lauer  - In Memoriam- Cadeira nº 22

 

 

      No caminho, ao longe, avistei o parreiral que iria visitar. Ao penetrar naquele santuário de verdura, tive de baixar a cabeça e afastar um ramo desgarrado e impertinente, num gesto obrigatório de reverência.

 

       O sol filtrava-se entre folhas cor de esmeralda e os ramos escuros estavam organizados na latada por mãos de artistas dedicados. Estendi o olhar e a beleza tomou conta dos meus sentimentos; a claridade verde, os bagos grossos de uva de cor arroxeada e madura exalavam um perfume doce e acre. O silêncio, quebrado apenas pela brisa cantante entre folhas e gavinhas e o zumbido de abelhas atraídas pelo doce sumo das frutas, o calor e a tranquilidade suscitaram em mim sentimentos de respeito e veneração.

 

        Amparadas pelos fios e estacas de sustentação, as videiras retorcidas abraçavam-se umas às outras, num gesto fraterno de apoio mútuo.

Não resisti e, com respeito, colhi um cacho saboroso. O chão estava iluminado e, ali mesmo, diante da natureza pródiga, fiz um ato de agradecimento. Era a fartura, o pão do agricultor, o resultado do trabalho árduo de um ano inteiro. logo viria a colheita, os cantos de alegria, o vinho jorrando...

 

       Depois, as folhas mudam de cor, desprendem-se, caem. Formam um imenso tapete amarelo e parecem quere proteger o solo, as raízes, durante o inverno comprido e chuvoso. Agora é preciso podar os galhos secos... As parreiras descansam, as parreiras dormem! Esperam a primavera... e, quando o primeiro broto verde explodir de amor, elas acordam e põem-se novamente a produzir a seiva vivificante que corre dentro dos ramos, adolescentes rebeldes que estiram os braços para a vida.

 

         Mas, a faina continua. O ciclo se completa. É preciso prender os galhos, aconchegá-los uns aos outros para que, unidos, tenham forças de enfrentar os ventos e granizos da estação e para não se perderem de amor ao sol.

 

        Parreiras da minha terra, vosso sangue, a uva e o vinho, sejam sempre motivos de alegria, de provisão e segurança... Sede abençoadas, cobri de fartura os lares dos que a vós dedicam seu conhecimento, seu carinho, sua esperança.

 

 

* Texto extraído da “Antologia Festa da Uva” publicada pela ACL-RS em 2002